Lula x Flávio: veja como seu clube orienta os jogadores sobre as eleições

Lula x Flávio: veja como seu clube orienta os jogadores sobre as eleições

O No Ataque consultou os 20 participantes da Primeira Divisão do futebol nacional para entender como o embate eleitoral é tratado internamente. Quais orientações são passadas aos jogadores e demais colaboradores? É permitido se posicionar publicamente a favor ou contra algum candidato?

Como os clubes se organizam?

A maioria dos participantes da Série A não proíbe o posicionamento individual de funcionários (inclusive jogadores) sobre política, desde que a imagem do clube seja preservada. Em vários casos, essas regras são previstas nos próprios estatutos – porém, nem sempre isso é respeitado.

  • Atlético – “Há uma orientação de não se exporem com política, por sabermos que política pode gerar polêmica”.
  • Bahia – “Não há restrição de posicionamento político do ponto de vista pessoal”.
  • Chapecoense – “Cada um é livre para expressar a sua opinião”.
  • Corinthians – “Não há nenhuma determinação nesse sentido, até pelo caráter democrático da história do Clube. Apenas aconselhamos o bom senso”.
  • Cruzeiro – “No caso do Cruzeiro, é proibido qualquer manifestação política de todos os seus colaboradores dentro do ambiente interno do clube. Sobre as redes sociais particulares, o que há é uma orientação de conduta. Em relação à política e também a qualquer outro tema polêmico”.
  • Flamengo – “O estatuto do Flamengo prevê que o clube não tenha posição política e nem se pronuncie sobre atos políticos”.
  • Grêmio – “O Grêmio possui determinações claras a respeito do comportamento de seus públicos internos sobre o tema. A neutralidade política, no ambiente do Clube, é comportamento determinado tanto no Estatuto Social, quanto no Código de Ética, aos quais estão submetidos conselheiros, dirigentes, colaboradores e associados. Todos os públicos foram orientados a respeito e receberam uma cartilha resumida dos comportamentos adequados”.
  • Red Bull Bragantino – “As únicas orientações que a gente passa são para manter o respeito, principalmente em não atacar outras pessoas que têm opinião contrária, e ficar atento com fake news. Mas eles (jogadores e demais funcionários) são livres para se posicionar”.
  • Vitória – “O clube não tem nenhum posicionamento político institucional. E cada jogador/funcionário tem a liberdade de se posicionar da maneira que bem entender. Desde que não atrele a imagem do clube ao seu posicionamento”.

Athletico-PR, Botafogo, Coritiba, Fluminense, Internacional, Mirassol, Palmeiras, Remo, Santos, São Paulo e Vasco não se posicionaram.

Casos de Atlético e Cruzeiro

Lucas Silva, volante do Cruzeiro - (foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)
Lucas Silva, volante do Cruzeiro(foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)

Em Minas Gerais, a diretoria do Atlético passou orientações internas para que os atletas não se exponham com política: “Por sabermos que pode gerar polêmica”, explicou o clube. O Cruzeiro proíbe manifestações eleitorais no ambiente interno e passou aos funcionários orientações sobre a conduta nas redes sociais particulares.

Jogadores de Atlético e Cruzeiro têm se mantido discretos quando o assunto são as eleições. Contudo, ainda que não falem tanto, alguns expressam possíveis preferências “silenciosamente” com o botão de “seguir” nas redes sociais.

Levantamento feito em 7 de outubro pelo No Ataque com os perfis no Instagram dos 35 atleticanos e os 34 cruzeirenses que compõem os elencos profissionais mostra uma predileção ao bolsonarismo – ou ao silêncio. O objetivo foi identificar quem segue Lula e quem segue Flávio.

Dos 69 perfis investigados, nove seguem a família Bolsonaro e nenhum acompanha Lula. Outros 56 não seguem nenhum deles, enquanto quatro não disponibilizam essa informação publicamente.

Do lado alvinegro, o zagueiro Ruan Tressoldi e o atacante Dudu seguem Flávio Bolsonaro – o camisa 92 também acompanha Jair Bolsonaro, pai do candidato de oposição. O zagueiro Vitor Hugo não segue nenhum dos dois candidatos, mas está na lista de seguidores do ex-presidente.

Flávio Bolsonaro é seguido por dois cruzeirenses: o lateral-direito William (que também acompanha Jair) e o atacante Gabriel Pec. O ex-presidente ainda está na lista de seguidos do goleiro Léo Aragão, do volante Lucas Silva (que segue também o irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro) e os atacantes Bruno Rodrigues e Rayan Lelis.

Atacante Dudu em ação pelo Atlético - (foto: Pedro Souza/Atlético)
Atacante Dudu em ação pelo Atlético(foto: Pedro Souza/Atlético)

“É por isso que sou Bolsonaro”

Em 11 de outubro, uma semana após o primeiro turno, o técnico Renato Gaúcho bradou em entrevista coletiva: “É por isso que sou Bolsonaro”. A frase concluiu uma resposta em que o comandante do Grêmio defendeu o auxiliar Alexandre Mendes, preso preventivamente em Porto Alegre no último dia 8 por suposto descumprimento de uma medida protetiva solicitada pela ex-companheira. Ele foi solto na noite seguinte, após a Justiça revogar a prisão.

As declarações de Renato repercutiram nacionalmente e causaram incômodo interno. O Estatuto Social e o Código de Ética determinam a neutralidade política no ambiente do clube – o que foi descumprido pelo treinador durante uma entrevista coletiva oficial pós-jogo. Segundo o Grêmio, todos os funcionários foram orientados sobre isso e receberam uma cartilha que resume as normas. A reportagem teve acesso ao documento, que prevê regras como:

  • Funcionários têm liberdade de opinião, mas devem agir com respeito e responsabilidade;
  • É proibido usar a marca, uniforme, símbolos ou patrimônio do Clube em atos eleitorais;
  • Não utilize o escudo, bandeiras, camisas oficiais, instalações ou veículos do Grêmio em manifestações políticas.

A cartilha ainda prevê que o descumprimento das normas pode “gerar advertência, suspensão ou desligamento, conforme o Código de ética” e diz que a “prática de atos políticos com uso da marca ou patrimônio do Grêmio” pode ser considerada “falta grave”. No caso de Renato, houve uma conversa interna para orientá-lo novamente sobre a conduta.

Cartilha entregue pelo Grêmio aos funcionários
Cartilha entregue pelo Grêmio aos funcionários

Jogadores se manifestam

Ainda que o silêncio seja maioria, alguns jogadores têm se manifestado individualmente. A maior parte deles endossa o bolsonarismo. São os casos, por exemplo, de apoiadores de longa data, como o meia-atacante Lucas Moura (São Paulo) e o meia-atacante Neymar (Santos).

No dia 4 de outubro, o camisa 10 do Peixe foi às urnas no primeiro turno com uma camisa retrô do Santos e, nas redes sociais, fez menção ao 22 – número do PL de Flávio Bolsonaro. O clube não se manifestou sobre o episódio.

Encontro entre Neymar e Bolsonaro em 2019 - (foto: Reprodução)
Encontro entre Neymar e Bolsonaro em 2019(foto: Reprodução)

No Palmeiras, manifestações dos dois lados – o clube também não se manifestou sobre as diretrizes internas. Os paraguaios Gustavo Gómez e Ramón Sosa e o brasileiro naturalizado paraguaio Maurício apareceram em uma foto em que celebram a vitória de Flávio no primeiro turno. Pouco depois, Sosa apagou a imagem das redes sociais. Por sua vez, o atacante Paulinho, ex-Atlético, voltou a se manifestar a favor de Lula – a exemplo do que havia feito quatro anos antes.

“Eu não esqueço de onde eu vim. E, principalmente, não esqueço de onde a minha família veio. Nós viemos de baixo e vivemos de perto a diferença que políticas públicas podem fazer na vida de uma família. Bolsa Família, ProUni, sistema de cotas, Minha Casa Minha Vida e tantos outros programas que abriram portas para muita gente, que antes pareciam impossíveis. Por isso, É LULA desde sempre”, publicou, nas redes sociais, no dia do primeiro turno.

Paulinho durante treino do Palmeiras - (foto: Cesar Greco/Palmeiras)
Paulinho durante treino do Palmeiras(foto: Cesar Greco/Palmeiras)

Cenário diferente no futebol feminino

No futebol feminino, o cenário é diferente. Várias jogadoras manifestaram apoio público a Lula – onda inversa ao que se vê no masculino. A goleira Carlinha declarou voto no atual presidente e criticou Flávio logo após se sagrar campeã brasileira pelo São Paulo, cujo elenco reforçou o posicionamento durante a celebração do título.

Grande símbolo do time feminino do Cruzeiro, a atacante Byanca Brasil também se manifestou a favor de Lula. Fora do país, nomes como Debinha (Kansas City Current) e Ary Borges (Angel City) foram na mesma direção.

Byanca Brasil, atacante do Cruzeiro, marcou três gols na vitória por 3 a 0 sobre o Bolívar-BOL, pela segunda rodada do Grupo C da Libertadores - (foto: Gustavo Martins/Cruzeiro)
Byanca Brasil, atacante do Cruzeiro(foto: Gustavo Martins/Cruzeiro)

A notícia Lula x Flávio: veja como seu clube orienta os jogadores sobre as eleições foi publicada primeiro no No Ataque por João Vítor Marques

You May Have Missed