Zé Lucas abre a casa e sonha acordado no Cruzeiro: ‘Diziam que eu não chegaria’
Em casa, o Playstation está ali, à disposição, como em tantas moradias de adolescentes. Ao redor, porém, há sinais de uma vida que mudou de dimensão em pouco tempo. Tão jovem, o meio-campista pernambucano, contratado por cerca de 5 milhões de dólares (aproximadamente R$ 25,5 milhões), convive com responsabilidades que vão muito além das de um garoto de sua idade.
Mas há uma particularidade nesse processo: Zé Lucas continua sendo, em muitos aspectos, o menino que começou a jogar bola aos quatro anos, na escolinha do próprio pai, em Pernambuco. Ainda se surpreende com o trânsito de Belo Horizonte, gosta de jogar videogame e escutar pagode nos momentos livres e procura no cuscuz um pouco da rotina que deixou para trás.
Em visita à casa do jogador, o No Ataque conheceu um lado menos visível da promessa celeste. Longe do Mineirão, dos treinamentos e da pressão que acompanha quem chega ao profissional de um dos maiores clubes do país, Zé Lucas falou sobre a família, o início no futebol, as dificuldades que enfrentou durante o crescimento e os sonhos que pretende realizar com a camisa estrelada.
Uma das histórias que ajudam a entender sua trajetória começa com uma preocupação que, à época, parecia poder limitar seu futuro no esporte.
“Meu pai me levou ao médico. Diziam que eu não chegaria ao alto nível, porque eu não cresceria. Eu e meu pai ficamos preocupados, fiz exames para ver a margem de crescimento, mas no fim deu tudo certo. Os médicos disseram que naturalmente eu ganharia corpo e foi o que aconteceu”, contou.
A preocupação ficou para trás, e o garoto avançou no futebol até alcançar um cenário que, alguns anos antes, ainda era um sonho distante. A trajetória, no entanto, não se resume à evolução física nem aos números envolvidos na carreira. Por trás do jogador que começa a conquistar espaço no Cruzeiro, há uma família que participou de cada etapa, um pai que foi seu primeiro treinador e um rapaz que ainda está aprendendo a lidar com as transformações da própria vida.
Nova casa, família e camisas que contam uma história
Desde o fim de julho de 2026, quando foi contratado pelo Cruzeiro, Zé Lucas mora em Belo Horizonte com o pai, Paulo Marcelino, conhecido como Paulinho. A mãe, Adriana Maria, e os irmãos Stefhany Emanuele, Maria Eduarda e Erick Luan continuam em Recife, em Pernambuco.
A mudança alterou a dinâmica familiar. Pai e filho passaram a dividir a rotina da casa, enquanto o restante da família permanece longe. Paulinho reconhece que a nova configuração traz dificuldades, mas explica que o foco, neste momento, está no desenvolvimento do jogador e na adaptação ao desafio de defender o Cruzeiro. Os dois têm planos de reunir a família em Belo Horizonte.
A distância não diminui o espaço que os parentes ocupam na vida do meio-campista. Ao falar sobre quem o sustenta emocionalmente, Zé Lucas faz questão de citar os familiares e a namorada.
“Minha família sempre foi muito especial para mim, me dão combustível para eu continuar nos meus sonhos, para continuar na minha pegada, são muito importantes na minha vida. Meu pai, minha família e minha namorada também são muito importantes para mim e eu faço de tudo por eles”, afirmou.
A importância desse vínculo aparece também nos objetos que o jogador guarda, que simbolizam o atingimento das conquistas esportivas. Durante a visita, Zé Lucas fez questão de mostrar três camisas especiais: a da Seleção Brasileira Sub-20, a que marcou seu primeiro gol pelo Cruzeiro e a da estreia na Copa Libertadores. Cada uma representa uma etapa diferente de uma carreira que avança rapidamente.
As outras camisas que colecionou ao longo da trajetória ainda estão em Pernambuco. As três que mostrou, entretanto, ajudam a dimensionar o caminho percorrido: da formação ao reconhecimento nacional, passando pela chegada a um clube que exige resultados e pela experiência de disputar uma competição continental.
O primeiro gol pelo Cruzeiro, marcado na vitória por 2 a 0 sobre o São Paulo, no Mineirão, nessa quarta-feira (7/10), ocupa um lugar especial nessa coleção.
“Foi uma sensação inexplicável para mim. É uma sensação única, fazer meu primeiro gol aqui com essa camisa do Cruzeiro como profissional. Estou orgulhoso, acredito que meu pai e minha família também. Isso me dá mais confiança para eu seguir meu trabalho, para que as coisas deem certo aqui no Cruzeiro”, disse.
Para Paulinho, acompanhar o momento também tem um significado que ultrapassa o campo. O pai vê no crescimento profissional do filho a continuidade de uma relação construída desde a infância, quando a bola já fazia parte da rotina dos dois.
“O Zé Lucas, além de ser um bom atleta, um bom profissional, jogador de futebol, é um excelente filho”, afirmou.
“Ele sempre foi muito respeitoso, dedicado, é um orgulho tê-lo como filho. Nesse novo desafio, as coisas estão fluindo. Ontem teve a oportunidade de fazer o primeiro gol como profissional e somar os três pontos, que era o mais importante.”
Antes do Cruzeiro, a escolinha do pai e o futsal do Sport
A história de Zé Lucas no futebol começou cedo. Aos quatro anos, ele já frequentava a escolinha do pai, que o colocava para jogar com garotos mais velhos, no bairro Engenho do Meio, na capital pernambucana. A lembrança ajuda a explicar como o esporte entrou naturalmente em sua vida.
“Eu só queria estar correndo atrás da bola. E ele também, ele queria me ver jogar, queria me ver correr. E assim foi meu início”, recordou.
Aos oito anos, o meio-campista ingressou na base do Sport, no futsal. A modalidade teve papel importante em sua formação. Aos 13, conquistou uma Taça Brasil de futsal (o “Campeonato Brasileiro” da categoria); aos 15, começou a transição para o campo, conciliando as duas modalidades durante um período.
A chegada ao profissional também aconteceu cedo. Aos 16 anos, Zé Lucas estreou no time principal do Sport, experiência que considera fundamental para seu desenvolvimento. “Foi muito importante para mim esse começo”, afirmou.
O caminho até o Cruzeiro perpassou menino que começou correndo atrás da bola na escolinha do pai passou pelo futsal, pela formação no Sport e pela experiência no futebol profissional antes de assumir um novo desafio em Belo Horizonte.
Entre o peso da camisa e a admiração pelos craques
A chegada ao Cruzeiro colocou Zé Lucas em contato diário com jogadores que, até pouco tempo antes, acompanhava de outra perspectiva. Mesmo já integrado ao futebol profissional e com experiências importantes na carreira, o meio-campista ainda se impressiona com o nível técnico dos companheiros.
Matheus Pereira e Gerson são dois dos jogadores que ele observa com mais atenção nos treinamentos. A admiração aparece na maneira espontânea como fala dos dois, quase como a de um garoto que ainda custa a acreditar que divide o campo com atletas que considera extraordinários.
“Eles fazem coisas que são de outro mundo. Principalmente quando eu cheguei, era tudo novo para mim e eu os via jogando e falava: ‘Poxa, esses jogam muito mesmo’”, contou.
O comentário revela uma das particularidades de sua fase atual. Zé Lucas já vive experiências que muitos garotos da idade dele ainda perseguem, mas continua descobrindo as dimensões do futebol de alto nível. Ao mesmo tempo que começa a construir o próprio caminho no Cruzeiro, observa, aprende e se surpreende com jogadores mais experientes.
A adaptação também foi facilitada pela recepção do elenco. Felipe Morais, jovem com quem já tinha contato desde o ano anterior, em razão de convocações mútuas para as seleções de base, tornou-se uma das pessoas mais próximas no dia a dia.
“Desde o primeiro dia que eu cheguei aqui, o grupo todo me acolheu super bem, tanto atletas quanto comissão, staff. Eu já tinha uma proximidade mais com o Felipe Morais. Eu cheguei, ele me abraçou super bem, é com quem ando no dia a dia, com quem mais convivo. Foi muito importante para o meu começo aqui no Cruzeiro e está sendo até agora”, disse.
Videogame, pagode e cuscuz: a rotina fora de campo
A chegada ao Cruzeiro impõe exigências que vão além do desempenho nos jogos. Há a pressão por resultados, a necessidade de conquistar espaço em um elenco profissional e a responsabilidade de corresponder ao investimento feito pelo clube. Ao mesmo tempo, a vida fora do futebol segue marcada por hábitos comuns à idade.
O videogame visto na casa do jogador é um retrato dessa dualidade. Zé Lucas ainda gosta de reservar parte do tempo livre para jogar, escutar música e descansar. Quando a família está em Belo Horizonte, prefere aproveitar a companhia dos parentes; também gosta de assistir a filmes com a namorada.
“Quando eu estou só, fico jogando meu videogame, tranquilo, escutando uma música. Eu gosto de escutar um pagodinho, é meu momento de lazer, mas gosto de ficar com a minha família, ver um filme com a minha namorada”, contou.
Até a adaptação à capital mineira oferece situações que o surpreendem. Zé Lucas já se acostumou a alguns aspectos da nova rotina, mas ainda se impressiona com o tempo necessário para percorrer distâncias relativamente curtas de carro. No dia da visita da reportagem, resolveu um problema a cerca de dez minutos de casa e demorou muito mais do que esperava para retornar, por causa do trânsito.
É um detalhe cotidiano, mas revelador: a mudança para Belo Horizonte não envolve apenas a troca de camisa ou de centro de treinamento. Significa aprender a viver em outra cidade, longe de parte da família e em uma rotina que precisa conciliar futebol, descanso e adaptação.
A alimentação também funciona como uma ligação com Pernambuco. Zé Lucas já experimentou pão de queijo e feijão tropeiro, pratos de que gosta, mas o cuscuz continua presente na rotina, tanto em casa quanto no clube.
“Já provei pão de queijo, feijão tropeiro, é muito bom, comida aqui é muito boa, tudo fenomenal”, comentou.
O cuscuz, por sua vez, mantém uma conexão com os hábitos que levou de Recife. Entre as novidades de Belo Horizonte e as exigências do futebol profissional, alguns costumes seguem iguais aos da criança pernambucana.
Preparação psicológica para amadurecer dentro e fora de campo
A adaptação ao futebol profissional também exigiu preparação fora das quatro linhas. Rosângela, conhecida como Tia Rô, acompanhou Zé Lucas desde o início da carreira profissional, com conversas frequentes e metas estabelecidas para ajudá-lo a lidar com os desafios da nova etapa.
O trabalho envolvia reconhecer suas características e desenvolver ferramentas para enfrentar situações comuns à rotina de um atleta em ascensão. Entre elas estavam a ansiedade, o medo de errar e a necessidade de compreender as mudanças provocadas pela exposição pública.
“À medida que ele evoluía, surgiam interferências externas, visibilidade, coisas que ele precisou lidar, como quando foi a um aniversário de um parente, quiseram tirar foto com ele, no shopping, e ele não entendia. Então precisava compreender essa nova identidade, que veio pelo que construiu”, explicou Rosângela.
Segundo ela, o acompanhamento ajudou o jogador a desenvolver autonomia e maturidade para lidar com os desafios dentro e fora do futebol. O objetivo era que ele compreendesse o processo e conseguisse manter o foco no próprio desenvolvimento, sem se deixar levar pelo momento.
Zé Lucas reconhece a importância desse trabalho e diz que continua utilizando as técnicas aprendidas. Para ele, as conversas e o estabelecimento de metas ajudaram a tornar a rotina mais leve e a lidar melhor com as oportunidades recebidas.
“Assim que subi para o profissional, nos primeiros dias ela chegou e disse: ‘Vamos conversar, vamos criar metas para você, sobre jogar ou não tem que ficar tranquilo’. Eu conversava com ela semanalmente. Era muito importante para mim e segue sendo, inclusive fazer as técnicas que ela ensinou. Isso deixa tudo mais fácil no dia a dia e tudo acontece naturalmente”, relatou.
Sonho de dar uma casa para a mãe
Se o futebol representa a realização de um sonho profissional, a família ajuda a explicar o significado pessoal de cada conquista. Antes de chegar ao Cruzeiro, Zé Lucas e os parentes viveram de aluguel. Comprar uma casa para a mãe era um objetivo que o acompanhava desde o início da trajetória no esporte.
A realização desse desejo aparece entre as lembranças mais importantes de sua vida até aqui. O objetivo foi conquistado em novembro de 2025.
“Dar essa casa para a minha mãe foi uma sensação muito especial, uma vontade que eu tinha desde que comecei a jogar bola. Sempre moramos de aluguel, nunca tivemos momentos tão bons como o que estou tendo agora, e retribuir isso para ela, dar uma casa a ela, conforto para a minha família é muito especial”, contou.
O feito resume parte do que move o jogador. O futebol abriu portas, mas o significado de avançar na carreira está ligado às pessoas que o acompanharam desde o início. O pai, que o colocou para jogar ainda criança, hoje divide com ele a rotina em Belo Horizonte. A mãe e os irmãos seguem em Pernambuco, enquanto a família planeja ficar mais perto.
A mudança de vida não elimina a saudade nem torna simples a adaptação. Por enquanto, pai e filho precisam administrar a casa e organizar uma rotina diferente daquela que tinham em Pernambuco.
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Sonhos continuam
Aos poucos, Zé Lucas aprende a equilibrar os dois mundos. De um lado, a responsabilidade de vestir a camisa do Cruzeiro, buscar espaço no time e corresponder às expectativas que cercam um jovem contratado como promessa. Do outro, a vida de um garoto que gosta de videogame, pagode, cuscuz e da companhia da família.
A experiência no profissional e na Seleção Brasileira Sub-20 ampliou seus horizontes, mas não apagou as referências que o formaram. O pai segue ao seu lado em Belo Horizonte; a mãe e os irmãos permanecem em Pernambuco, enquanto a família planeja ficar mais perto. As camisas especiais guardam lembranças do caminho percorrido, e o primeiro gol pelo Cruzeiro agora faz parte dessa história.
Paulinho resume o orgulho de acompanhar o filho nessa nova etapa. Zé Lucas, por sua vez, mantém o compromisso de continuar trabalhando e de retribuir o apoio recebido, para atingir o maior sonho da carreira: conquistar uma Copa do Mundo.
O menino que um dia ouviu que talvez não chegasse ao alto nível já alcançou lugares que sonhava. Agora, enquanto aprende a lidar com o tamanho do clube, com a distância de casa e com as novas responsabilidades, tenta seguir avançando sem perder de vista aquilo que o trouxe até aqui: a bola, a família e a vontade de continuar crescendo.
A notícia Zé Lucas abre a casa e sonha acordado no Cruzeiro: ‘Diziam que eu não chegaria’ foi publicada primeiro no No Ataque por Vitor de Araújo


